terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sobre borboletas

Celso Pinheiro de Oliveira


O vento tocava levemente seu rosto fazendo com que seus cabelos dançassem sobre os olhos, em uma brincadeira de esconde- aparece.
Dalí, da altura em que ela estava, era possível enxergar o verde do Parque do Ibirapuera, contrastando com o imenso mar cinza dos prédios da cidade.
Nuvens escuras se formavam no horizonte, prenunciando mais um dia de muita chuva em São Paulo. A cidade, tomada de asfalto e cimento, havia se tornado impermeável e agora, dia a dia, a natureza cobrava a conta do desmazelo.
Àquela hora da manhã, lá embaixo na rua, as garagens dos prédios já começavam a despejar os carros e seus moradores, que partiam para mais um dia de trabalho.

- Os prédios parecem enormes gigantes que de ponta cabeça, escancaram suas bocas vomitando pessoas e carros - O pensamento arrancou um sorriso de Maria.
As pontas dos dedos dos seus pés flutuam livres fora da beirada da janela. O esmalte vermelho das unhas fazia com que parecessem pequenas borboletas voando sobre a rua.
-Que bom se eu fosse uma borboleta!

Maria sempre tivera fixação por borboletas. Elas estavam presentes em todas as suas coisas. Nos pingentes de seu quarto de criança, nas presilhas de cabelo, no estojo de lápis de cor. Não iniciava um caderno novo na escola sem antes desenhar, na primeira página, uma borboleta colorida.
E a Leninha ? Uma enorme borboleta de pelúcia que havia ganho do seu pai quando tinha oito anos. Fora sua primeira amiga e confidente. Isso sem contar é claro, com o Pedrinho, seu grande amigo, cujo único defeito era ser invisível para todos, menos para ela.
Os dois foram testemunhas do seu sofrimento, a cada briga de seus pais. Estavam sempre presentes quando ela corria a se esconder em baixo da cama, cobrindo a cabeça com o travesseiro, para não escutar os gritos e discussões.
E fora em baixo da cama que o seu pai a encontrou, quando veio se despedir antes de sair de casa.

- Mázinha sai um pouco daí que o papai precisa conversar com você - Seu pai ajudou-a a sair de seu esconderijo, sentando-se ao seu lado na cama.
- Não chore minha pequena. Os adultos são assim...ás vezes discutem e brigam.
O papai queria dizer que ama muito você, que você é a borboletinha dourada do papai. Enquanto falava, fazia um cafuné na testa e nariz da pequena, algo que sempre acalmava a menina.
- O papai não quer mais brigar com a mamãe, nem que a borboletinha dele sofra. Por isso nos achamos, a mamãe e eu, que é melhor o papai ir morar em outro lugar.
- Como assim? E eu? Vou junto com você? -
- Não, é melhor você ficar com a mamãe, assim ela não fica sozinha e triste. Mas o papai vai vir todo dia visitar você, tá bom meu bem?

Promessa que ele não conseguiu cumprir. As suas visitas eram sempre terminadas com novas brigas com a sua mãe, que mesmo nas suas ausências - talvez até por uma questão de costume, fazia questão de lembrar a menina, o quanto ele era irresponsável e omisso.

Um dia sua mãe pediu que se vestisse para irem visitar o pai. A menina estranhou o convite, mas "mergulhou" em seu armário em busca da roupa mais bonita. Qual vestido usar? O verde ? O vermelho de alcinhas, ou o azul de lacinhos brancos? Seu pai sempre dizia que com o azul ela parecia uma princesa.
- Maria das Graças se apresse! Não temos o dia todo! A menina sabia que quando a sua mãe lhe chamava pelo nome inteiro era sinal de problema. De um só pulo, vestiu o vestido azul de lacinhos e desceu.

- Mamãe...não estou entendendo. Não íamos visitar o papai? Então porque estamos entrando no hospital?
- E que o papai ficou doente e teve que vir para o hospital - A resposta seca de sua mãe encerrava a questão, não deixando espaço para nenhuma outra pergunta. Desde a separação sua mãe parecia haver perdido o seu eixo. Tornara-se uma pessoa amarga, distante, sempre reclamando, como se o mundo estivesse em débito com ela.

Ao entrarem no quarto, a menina foi surpreendida por uma parafernália de equipamentos. Ao lado de seu pai um aparelhinho, que mais parecia uma televisão, cheio de números, com uma bolinha e riscos esverdeados que se movimentavam por toda a tela. Dois canudinhos saiam das suas narinas e eram ligados a um tubo na cabeceira de sua cama.
Ao perceber a sua presença seu pai abriu vagarosamente os olhos, e ao vê-la, fala com uma voz muito fraca e cansada.
- Oi minha gatinha, é você? Chega mais perto para o papai te ver direito. Olha só! Você veio com o vestido que eu gosto, parece uma princesinha...
Maria não consegue falar. Sente uma lágrima teimosa escorregar pelo seu rosto.
- Não precisa chorar minha princesa. O papai está bem, daqui a pouco vou voltar pra casa e você vai me visitar, está bem?
Com muito esforço ele conseguiu colocar a mão no rosto da menina, fazendo o cafuné em sua testa.
- Não fique triste minha borboletinha dourada..
Um acesso de tosse interrompe a frase. Imediatamente a enfermeira, que estava no quarto, pede que todos saiam.
Foi a última vez que Maria veria seu pai.

-Porque dessa lembrança agora? - boca seca e o coração aos pulos, Maria começa a ver passar o filme da sua vida.

A perda de seu pai fizera dela uma menina ainda mais introspectiva. Já no ginásio, o relacionamento com os colegas de classe eram sempre superficiais e distantes. Parecia que Maria evitava uma aproximação maior, com medo do envolvimento que pudesse acontecer. Até mesmo os namoros, tão comuns para a sua idade, eram passageiros. A única pessoa que havia conseguido conquistar o seu afeto era o Carlos. Ele sim estava junto em todas as ocasiões, escutando seus segredos e aflições. Talvez até pelo fato dele também ser uma espécie de alma desgarrada. A maioria dos rapazes o considerava afeminado, evitando a qualquer custo serem vistos em sua companhia.

- Sabe Cá, o Marcos quer ficar comigo! Maria conversava com Carlos nos degraus da arquibancada da quadra de esportes do colégio.
- Ué menina! Mas vocês já não estão ficando?
- Você não entendeu...Ele quer ficar, quer tudo entendeu?
- Uauuu! E aí? O que você respondeu? Você falou que ainda era virgem?
- Claro que não! Você acha que isso é coisa prá se dizer! Maria dá um tapinha no braço do amigo fingindo estar com raiva.
- E eu que sei?...Mas você gosta um pouco dele não?
- Ele é um cara legal...é divertido. Sei lá... quer saber a verdade? Eu queria experimentar...quem sabe depois disso, as outras meninas parem de me perturbar.
- Esquece essas meninas, pense em você. Pense se isso vai fazer bem a você... se vai te fazer feliz.
- Não sei meu amigo, acho que só experimentando, né? Se acontecer eu te conto, ok? Maria ouve Carlos chamando por ela, na rampa de saída da escola. Despede-se do amigo.
- Segunda feira a gente conversa, beijo!

Maria se arrumava em seu quarto para ir ao shopping, quando ouve o grito de sua mãe.
- Maria, o Carlos está aqui!
- Pede para ele subir, mãe!
-Carlos no domingo à tarde em casa? O que será que aconteceu? - pensa Maria estranhando a visita.
Carlos abre a porta do quarto de Maria, entrando esbaforido, mal contendo a ansiedade.
- Desculpa Má, mas eu não aguentei esperar até amanhã. Quero que você me conte tudo. Rolou? - sentado na cama de Maria, Carlos abraça a borboleta de pelúcia colorida, que estava sobre o travesseiro.
- Cara pode soltar a Leninha! Você sabe que nela ninguém pode tocar! -retira a borboleta das mãos de Carlos, deixando claro o seu descontentamento.
- Esqueci... desculpa. Não encosto mais nela! Agora me fala, rolou?
- Rolou...- Maria senta-se na poltrona, encolhendo suas pernas contra o peito para abraçar a borboleta.
- Então..fala. Aonde vocês foram?
- Fomos à casa de um primo do Carlos, o Valdir. Os pais dele estavam viajando e ele emprestou a casa para o Carlos.
- Detalhes Má....quero todos os detalhes.
- Sabe, pra falar a verdade foi tudo muito rápido. Mal chegamos e o Carlos me levou para o quarto. Na cama trocamos uns dois ou três beijos e ele começou a me arrancar a roupa...
- E.....
- Para ser sincera, a coisa toda se resumiu em dor.
- Como assim?
-Quando ele tirou toda a roupa, deitou em cima de mim e começou a me penetrar. Doía muito e eu não sabia como deveria agir. Ele parecia nervoso e eu não queria que se irritasse comigo. Depois eu acho que fui me acostumando, quase gostando sabe? Só que aí, ele começou a tremer e um segundo depois já estava deitado ao meu lado.
- E foi só isso?
- Só...Depois, como ele me disse que estava com medo dos pais do Valter voltarem, pussemos nossas roupas e ele me trouxe para casa. Sabe Cá, não dá pra entender porque as meninas falam tanto em transar. Eu pensei que fosse muito melhor, com muito mais carinho, um instante mágico...Acho que estou me sentindo pior que antes.

As mãos de Maria, na moldura da janela, começam a formigar. Contraindo e descontraindo, ela faz o sangue voltar.

- Alô?
- Ei Má, sou eu, pode falar?
- Posso...mas rápido..o Julian deu uma saidinha mas já deve estar voltando!
- Ichiii, você e esse Julian..Vamos nos encontrar hoje à noite? Conheci uma pessoa muito especial e queria falar com você. Vamos?
- Cá, hoje não vai dar. O Julian ficou de me levar naquele restaurante novo.. Vamos amanhã, ok?
- Tudo bem - responde Carlos com a voz conformada. Contra o Julian eu perco todas mesmo!
- Deixa de ser ciumento! Você sabe o quanto é especial para mim!
- Ok Má, tudo bem. Amanhã a gente conversa. Beijinho!
- Outro....

Maria desliga o telefone, ainda sorrindo com o ciúme de Carlos. Ele era o irmãozinho que a vida lhe dera. Sempre presente, apoiando, protegendo, principalmente nesse último ano, após a morte de sua mãe.

Julian retorna a sala. Maria não podia deixar de notar o quanto ele era bonito.
Alto, cabelos grisalhos e um par de olhos azuis que deixavam corações arrasados na sua passagem. Seu porte atlético não deixava transparecer os seus quase sessenta anos de idade. Viera dos Estados Unidos, enviado pela matriz da companhia, para assumir a vice presidência de marketing.
Apesar de ser o chefe imediato de Maria, ela levou um bom tempo para se interessar por ele. Talvez a sua educação, o fato de ser muito atencioso, o seu jeito de falar e encarar a vida, a sua experiência. O encantamento chegou, fazendo com que ela colocasse de lado todas as suas defesas. Até a diferença de idade, quase trinta anos, deixou de contar para Maria. A relação já durava cinco anos. Cada um em sua casa, mas sempre juntos como um verdadeiro casal.

A conversa com Carlos na noite seguinte acabou altas horas da madrugada. Como fazia já algum tempo que não se viam, a fila de assuntos era enorme. Mas o que Carlos queria mesmo falar era sobre Raul. Carlos conhecera Raul há uns três meses e a paixão fora imediata. Em apenas uma semana, Carlos devolveu seu apartamento alugado e fora morar com ele. Raul era um diretor de teatro - Uma inteligência de físico nuclear em um corpo de atleta olímpico, como dizia Carlos.

- Toma cuidado meu amigo. Você sempre entra nos seus relacionamentos com entrega total. Você está se cuidando? Está se prevenindo?
- Má, agora quem cuida de mim é o Raul- Carlos respondeu com um olhar tão apaixonado, que Maria achou melhor não continuar o interrogatório.

Ao chegar em casa, Maria notou o lead da secretária eletrônica piscando. Pressiona o botão para escutar a mensagem.
- Maria..sou eu, Julian. Tentei falar com você, mas não consegui. Estou saindo para uma viagem de emergência. Volto na segunda feira. Beijos.
-Viagem de última hora? estranhou Maria.

As horas daquele fim de semana teimavam em não passar. Maria era toda angústia, alguma coisa parecia lhe dizer que problemas iriam surgir.
Ao chegar ao escritório na segunda feira, encontrou colado na tela do seu computador, um post it do Julian.
- Cheguei e entrei direto em reunião com a presidência. Almoçamos?

No restaurante, pela expressão de Julian, Maria deve certeza que a conversa não seria amena.

- Meu amor, sinto não ter conseguido te avisar. Fui para os Estados Unidos.
- Estados Unidos? Mas o que aconteceu?
-É uma conversa difícil, preciso que você me escute com muita calma. A companhia tem uma regra que todo diretor, ao completar sessenta anos, tem que se aposentar. E como você bem sabe daqui a dois meses eu faço sessenta.
- E....?
- Para minha surpresa fui convidado pela matriz para fazer parte do conselho internacional. O pessoal de lá acredita que a minha experiência com países como o Brasil, possa ser de grande valia para eles.
- Mas que bom! Isso é um grande reconhecimento ao seu trabalho. E fazendo parte do conselho da companhia, você vai poder agilizar a minha transferência para lá. Assim posso continuar trabalhando.
- Maria...não vai poder ser assim.
- Como não? Porque?
- Maria, estive também com a minha família. Você sempre soube que eu tinha mulher e filhos nos Estados Unidos.
- Sabia...- diz com a voz trêmula. Mas você sempre disse que estavam separados!
- Sim, é verdade. Só que agora com a volta, meus filhos estão fazendo muita pressão e...
- E?
- Bom... Maria, eu sinto muito, mas resolvi reatar com a minha mulher. Nos vamos viver juntos novamente.

A cabeça de Maria parecia entrar dentro do seu pescoço. Não conseguia mais sentir seu próprio peso. Começando a sentir náuseas, reúne as forças que lhe restavam e sai do restaurante, abandonando Julian na mesa. Precisava desesperadamente de ar...

Os meses seguintes a partida de Julian, encontraram uma Maria cada vez mais reclusa.
Sistematicamente recusava convites para as festas e encontros com o pessoal do escritório. Por força dessa atitude os convites foram rareando, passando a não chegar mais. Até o Carlos parecia ter se evaporado,nunca mais ligara.
-Pelo visto, o relacionamento com o Raul devia estar a mil - pensou Maria. - Mas quer saber, se ele não liga, ligo eu!

O telefone tocou muito até que alguém atendesse. Uma voz gutural atende do outro lado. Maria não consegue reconhecer a voz.
- Alô, quem está falando? Carlos é você?
- Sou eu sim, Maria. Sou eu mesmo.
- Carlos... o que está acontecendo? Você não está bem?
- Estou sim Má...É só uma gripe muito forte- a voz de Carlos deixava transparecer o esforço que ele fazia para conversar.
- Não fale mais nada. Estou indo para aí- Maria desligou o telefone, sem esperar a resposta de Carlos.

Ao chegar ao apartamento, Maria encontra a porta entreaberta. Não esperou a permissão, entrando apartamento adentro. A sala estava na mais completa desordem. Provavelmente não via uma faxina há muito tempo. Pelo vão da porta da cozinha, dava para notar, que a situação ali também era caótica. Uma montanha de pratos e panelas buscava um equilíbrio precário, usando a própria torneira da pia como amparo, que gotejava insistentemente, como se quisesse dar conta de toda aquela sujeira.
Um acesso de tosse à leva ao quarto de Carlos, lá encontrando o amigo enrolado em cobertas, apesar de todo o calor que fazia.

- Carlos, o que está acontecendo? Você está queimando de febre!
- Não sei minha amiga. Não estou conseguindo nem abrir os olhos. Perdi a noção de quanto tempo estou aqui.- Com a voz muito baixa, Carlos tentava conter o tremor do corpo.
- Espera um pouco que vou ver se encontro toalha e água para abaixar essa sua febre. Mas onde está o Raul? Como ele te deixa sozinho nesse estado?
- Má, o Raul morreu o mês passado! Tentei te avisar, mas você não retornou nenhum recado meu...
Maria não precisou perguntar mais nada. O estado de Carlos, a morte de Raul, tudo levava a uma conclusão, que apesar de evidente, ela fazia questão de afastar da mente.
- Não se esforce mais. Você precisa ir já para o hospital. Vou te enrolar em um cobertor limpo e te ajudo a descer até o meu carro.

A espera naquela sala do hospital aumentava a angústia de Maria. Os enfermeiros haviam levado Carlos há mais de uma hora, deixando-a ali sem nenhuma informação. Na baia da enfermagem nenhum movimento era visível. Até os ponteiros do relógio, colocado na parede lateral do posto de serviço, pareciam parados.

O telefone toca e uma enfermeira vem avisá-la que o médico estava chamando. Maria é conduzida a uma pequena sala de consultas, sendo recepcionada por um médico de aparência séria e reservada.

- Você é a acompanhante do paciente?
- Sim doutor. Fui eu que o trouxe para cá.
- Você é da família?
- Não doutor. Carlos não possue parentes. Seus pais já morreram há muitos anos. Somos grandes amigos ... na verdade Carlos é quase um irmão. Mas doutor, o que ele tem?
- Fizemos todos os exames e não restou nenhuma dúvida. O paciente está com AIDS. A doença já se encontra em estágio avançado, apresentado os sintomas de uma pneumonia bastante forte.
- O senhor tem certeza? Não pode haver algum engano? Maria sabia da inutilidade da pergunta. A morte de Raul era muito mais que um indício da doença.
- Eu sinto muito...O paciente permanecerá internado até que possamos estabilizá-lo e cuidar da pneumonia. Depois disso terá alta e você poderá levá-lo para casa. Agora o que é muito importante é localizar as pessoas que se relacionaram com ele e encaminhá-las para exames urgentes.

Maria sabia que nos últimos anos, para o seu amigo, só existira o Raul. Fidelidade sempre fora um traço muito marcante de Carlos, na amizade e no amor.
Deixa o hospital em direção ao estacionamento, sem conseguir imaginar aonde havia largado seu carro. Tentava pensar positivamente; que Carlos era forte, que os coquetéis que combatiam a doença estavam cada vez mais poderosos, que ele iria se safar dessa...O coração gritava aquilo que a cabeça parecia não entender. Sentando-se em um pequeno banco do estacionamento, Maria apoia a cabeça por sobre os joelhos, deixando as lágrimas, até então contidas, seguirem seu curso natural.

As duas semanas seguintes foram de muita correria para Maria. Entre o trabalho e as visitas diárias ao hospital, ela cuidava de arrumar um quarto de sua casa para receber o amigo. Decidira que Carlos iria morar com ela, nada adiantando a insistência dele em voltar para a própria casa.

A saída do hospital, a aparência de Carlos já apresentava melhoras. A cor de seu rosto voltara, o que disfarçava ligeiramente as manchas que começavam a surgir em sua pele. Apesar de estar ainda muito fraco, a sensação de estar fora do hospital,
fazia-lhe muito bem.
- Agora vamos para casa. Vamos enfrentar essa luta juntos e juntos vamos vencer essa doença! A frase cheia de esperança de Maria arrancou um sorriso de Carlos, que pega a mão da amiga depositando um beijo de agradecimento.

A luta prosseguiu. Cada pequena melhora na saúde de Carlos era comemorada com muita alegria. Nas recaídas, que eram cada vez mais constantes, Maria procurava sempre acalmá-lo, não deixando nunca transparecer o desespero que a dominava.
Procurava estar o mais presente possível. As noites e os finais de semana eram gastos com os cuidados médicos necessários e longas conversas sobre a vida.
Por mais paradoxal que pudesse parecer, quando mais a doença tomava o corpo, mais a mente de Carlos parecia lúcida. Em muitos momentos era a sua força interior, a sua luz, que acabava trazendo conforto para Maria.

- Sabe Maria, acredito que o sofrimento traga sempre uma lição. É como se ele viesse para nos dizer o que ainda precisamos resgatar em nossas vidas. É a maneira que Deus encontrou para abrir as nossas mentes.
- Cá, me responde com sinceridade, você acredita em Deus?
- Claro que sim. Porque não haveria de acreditar?
- Não sei....Acho que perdi a minha fé. Se Deus existe, ele tem sido muito cruel comigo. Se o sofrimento vem para nos ensinar, o que eu deveria aprender? Porque ele insiste em me tirar tudo aquilo que eu amo? Que grande lição há na perda?
- As perdas, assim como os erros, nos ensinam muito. Não existe nada a aprender com os acertos, eles só são a confirmação do seu conhecimento. O erro, a perda e a dor nos ensinam muito. Nos fortalecem, nos fazem crescer. O próprio nascimento é um ato de dor. É um instante de sofrimento para encontrar a luz.
- Qual o sentido da perda? Porque nos privar das pessoas que amamos?
- Como você mesmo disse...Se Deus toma é porque deu. Qual é a real felicidade - perder algo que nos é importante ou nunca ter tido alguém ou sentimento para perder?
- Sei lá, acho que tudo isso é conformismo demais. Sofrer nessa vida para encontrar uma vida feliz depois...Então talvez seja melhor abandonar essa e ir direto para a outra...
- Isso seria como tentar passar de ano na escola na metade do semestre. Você só evolui quando aprendeu tudo que aquele estágio pode oferecer. Abandonar no meio só faz com que tenhamos que voltar ao começo. Olhe para mim, você não acha que seria muito mais fácil eu desistir...
Maria segura a mão de seu amigo e acaricia os poucos fios de cabelo que lhe restavam.
- Desculpa Cá. Não percebi o quanto estava sendo insensível. Meus problemas são tão pequenos diante do.....- Maria interrompe a frase repentinamente.
- Diante do meu, você queria dizer.
- Desculpe-me de novo Cá. Eu estou um pouco estressada. Às vezes parece que todas as portas estão se fechando, a gente fica sem caminho, perde o chão. A cabeça começa a "pirar"!
- A sanidade mental, minha amiga, é como aquelas cortinas de plástico antigas que colocavamos no box do chuveiro. Quando estamos saudáveis todos os ganchos permanecem presos a barra. Os traumas que a gente vai acumulando vão soltando esses ganchos. Cada gancho que escapa vai deixando mais peso para os que ficam, até que o último, não suportando o peso, cai levando junto a cortina.
- Eu acho que então estou pelo último gancho..
- Mas o que é isso Má? Você precisa reagir, você é ainda uma criança!
- Criança...bem que gostaria. Eu e meu mundo...
- Má, as vezes, quando a dor é muito grande, eu sinto vontade de abandonar tudo, de simplesmente fechar os olhos e deixar o corpo ir. Certos dias até sonho com isso.
Quando acordo e vejo que ainda estou aqui, preso a esse sofrimento, sinto muita raiva. Aí vou me acalmando. Tomo consciência que se ainda não fui e porque não acabou. A vida ainda não me deu alta....
- Meu amigo, gostaria de ter essa sua força, essa fé.
- Acho que nem eu mesmo sabia que tinha. A fé muitas vezes é um aprendizado, um copo de água completado dia a dia, gota a gota.
- Está certo meu querido. Vou tentar encontrar o meu copo. Agora vamos dormir, que você precisa descansar.- Maria arruma o cobertor de Carlos e estala um beijo em sua testa.- Durma com Deus!

Na manhã seguinte, Carlos fez a sua passagem. Maria o encontrou deitado, na mesma posição da noite anterior. Pela primeira vez, em todos esses meses de dor, Carlos mostrava um rosto sereno, quase feliz. Era como se ele estivesse a lhe dizer que havia cumprido a sua missão. Maria chorando toma o corpo do amigo nos braços, como se com isso fosse possível mante-lo ali, ao seu lado. - Não meu Deus, outra vez não!
Porque insiste em me tomar tudo? Que mais eu posso lhe dar?

-Que mais eu podia dar, se nada mais eu tinha a perder? - O pensamento e os primeiros pingos da chuva que chegava, trouxeram de volta Maria. A impaciência dos motoristas, já era traduzida pelas primeiras buzinas vindas da rua abaixo. O vento frio arrepiava a sua pele. A chuva começa a desenhar caminhos pelos seus braços encostados na moldura da janela da sala.

- O que mais deveria ser aprendido? O que ainda estava faltando? Carlos, paizinho...
me respondam...

Parecia que todos estavam ali. Carlos, a sua mãe, Julian sentado em uma cadeira cercado da mulher e dos filhos... E o Pedrinho, onde estava? - Fazia muitos anos que ela não via o Pedrinho. Não conseguia se lembrar da última vez que ele aparecera. - Talvez ele tivesse ficado com ciúme da sua amizade com o Carlos...Será? E ali, bem no meio de todos eles, seu pai. Todos a olhavam com uma expressão estranha, Maria não conseguia entender. Não estavam felizes em vê-la?
- Pai porque você está com essa cara? Não está feliz em me ver? Sou eu pai....a sua borboletinha dourada. Maria estende seus braços como se fosse abraçá-lo.

- Olha pai...agora eu sou mesmo uma borboleta. Está vendo pai?
Agora eu também posso voar.....

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Por Toda Vida

Celso Pinheiro de Oliveira


A rua Libero Badaró, naquela tarde, tinha um certo ar de intranquilidade. As pessoas caminhavam apressadas, olhando para os lados, desconfiadas, numa aparente ansiedade para chegarem aos seus destinos.
Aquele 1969 estava sendo um ano difícil para todos. O presidente Costa e Silva, doente, a junta militar assumindo o comando. Para piorar, haviam sequestrado o embaixador dos Estados Unidos - Charles Elbrick. A tendência agora era das coisas se tornarem ainda mais imprevisíveis e perigosas.
Cesar subia a rua, alheio a tudo que o cercava. Estava terminando o Clássico; mais um ano estaria prestando vestibular para Direito. Aos desseseis anos, dividia seu tempo entre os estudos e o trabalho de office boy - meio período - no escritório de contabilidade do seu tio.
Estampidos, que lembravam o estourar de rojões, o colocaram em alerta. Gritos começam a ser ouvidos. De repente, como uma onda gigante, uma massa de gente correndo avança em sua direção, vinda do Largo São Francisco, sede da Faculdade de Direito.
O desespero era evidente. Manifestantes, misturados com as pessoas que estavam na rua, procuravam um abrigo para se protejerem do que estava por vir.
A razão de todo o medo surgiu na sequência. Montados em cavalos, que mais pareciam tanques de guerra, chegam as tropas do exército. Os soldados, atirando-se sobre as pessoas, jogavam seus animais e distribuíam pancadas com seus cassetetes, indistintamente, sem a menor preocupação de quem estivesse sendo atingido. As bombas de gás lacrimogênio disparadas cegavam as pessoas, o que tornava mais difícil ainda a busca por proteção.
No meio de todo o caos, Cesar vê uma menina, desesperada, sendo arrastada pela multidão. Instintivamente consegue alcançá-la e, puxando-a pelo braço, busca abrigo para os dois atrás da marquise de um prédio.
Ficaram encolhidos naquele canto por pelo menos meia hora, até que tudo se acalmasse.
Cesar espia para saber se tudo havia voltado ao normal. A rua era o retrato fiel do acontecido. Faixas de protestos rasgadas, pedaços de paus, marcas de sangue, sinais de toda a violência perpetrada. Como bichos da areia da praia que retornam a luz do sol após a onda haver passado, as pessoas saiam de seus esconderijos, tentando retomar os seus caminhos.
-Acabou? Com a voz trêmula, pergunta a menina, sem abandonar o seu canto protetor.
-Acabou sim, pode sair agora. Cesar observa a menina que havia salvado. Cabelos castanhos lisos, que praticamente encobriam seu rosto, ela deveria ter no máximo uns doze anos. Como quem abre uma cortina, a menina afasta seus cabelos, deixando ver seus olhos castanhos e seu nariz arrebitado.
- Mas, menina, o que você estava fazendo aqui sozinha?
- Eu estava indo encontrar com a minha mãe. Ela está me esperando no Mappin. Eu estava no ônibus.... aí um bando de gente obrigou ele a parar. Começaram a gritar e a sacudi-lo. Todo mundo desceu e saiu correndo. Eu fiquei com medo e corri também.
- E a tua mãe deixa você sair sozinha?
- E porque não deixaria? respondeu a menina, pelo visto já refeita do susto, não sem antes levantar o nariz arrebitado, em atitude de desafio.
- Por nada, não. Só perguntei por perguntar. Não fica brava não. Olha só, eu me chamo Cesar, qual é o seu nome?
- Meu nome é Tatiana.
- Bem, Tatiana, vamos fazer assim: eu vou te levar até o Mappin para você encontrar a sua mãe, certo?
Tatiana já estava pronta para negar, sob a alegação de não ser nenhuma criança, mas a sensação de passar mais algum tempo na companhia de seu salvador a fez recuar.
- Aceito... mas só até a porta, ouviu?
Os anos se passaram. Cesar, agora com vinte anos, havia entrado na Faculdade de Direito São Francisco. Com muito esforço, tinha conseguindo estágio num importante escritório de advogados, dando assim início à carreira que sempre idealizara.
Uma tarde, ao chegar ao escritório é chamado pelo Dr. Luís, seu chefe imediato. Apontando as três meninas que estavam sentadas no sofá da sua sala, conduziu as apresentações.
-Meninas, esse é o Cesar. Ele vai levá-las para conhecer tudo por aqui. Cesar, essa morena bonita é minha filha, Isabel. Ela e as suas amigas, que estão no colégio, vieram aqui conhecer o nosso escritório. Quem sabe não tenhamos aquí alguma futura advogada?- disse apressando em colocá-las para fora da sala.
Cesar iniciou o giro, tendo à frente Isabel, que tentava aparentar para as amigas uma intimidade - não existente -com o estagiário do seu pai.
- Cesar, vamos começar pela biblioteca do meu pai. Meninas, vocês precisam ver a biblioteca. Papai tem muito orgulho dela, são mais de mil e quinhentos livros!
As amigas seguiam Isabel, não sem deixarem transparecer um certo enfado. Uma delas, a mais bonita,na opinião de Cesar, pergunta:
- Você já é formado?
- Não, ainda não. Faltam dois anos e meio.
- O pai da Isabel falou que os advogados podem optar por várias áreas, tipo assim ... trabalhar no júri, mexer com impostos, coisas assim. Qual área você vai escolher?
- Eu não quero advogar. Pretendo seguir a carreira diplomática.
- Nossa...deve ser bem legal. Conhecer vários países, outras culturas...
- É, esse é o meu sonho.
A visita tinha chegado ao fim e, na despedida, a menina ao se aproximar de Cesar, fala bem baixinho, de uma maneira que só ele ouvisse.
- Espero que você realize o seu sonho!
Cesar,meio sem jeito, se despede da menina-Que coisa intrigante, pensou. Por uma razão qualquer, aquela menina dava a impressão de que já o conhecia...

O calor no Fórum estava infernal. Cesar viera acompanhar o processo de um cliente do escritório. Sua empresa estava envolvida em uma ação de despejo. Não era um grande cliente e nem uma grande ação, mas Cesar não tinha do que se queixar. Com vinte e sete anos, tinha alcançado uma posição que muitos colegas da sua idade não haviam atingido. Era advogado de um grande escritório, tinha o respeito dos colegas e já estava sendo sondado pela direção para se tornar advogado associado. Apressado, cruzava o saguão do Fórum. Havia combinado com a sua esposa de apanhá-lo na saída e sabia que os guardas não a deixariam esperar, com o carro parado na porta.
Distraído, não vê uma moça que caminha em sua direção, examinando uma montanha de papéis que carregava nas mãos.
O desastre foi inevitável. Um encontrão e os papéis voaram por todos os lados.
- Desculpe-me,moça.... estava distraído, espera que eu te ajudo! enquanto falava, Cesar se abaixa recolhendo os papéis espalhados.
- Não se incomode,a culpa foi minha. Estou atrasada para entregar essa petição e nem reparei que você estava vindo... Enquanto falava, ela levanta a cabeça para observar com quem havia trombado. Com um sorriso de surpresa, dirige a pergunta.
- Espera aí.. Você não é o Cesar?
- Você me conhece?
- Eu acho que você é que não está me reconhecendo. Eu era amiga da Isabel, a filha do Dr. Luís.
A lembrança daquele dia vem de imediato na memória de Cesar.
- Mas claro, a estudante que queria conhecer um escritório de advogados. Puxa, quanto tempo,hein..?
Enquanto falava, Cesar não conseguia disfarçar o efeito que ela estava lhe causando. Aquela colegial havia se transformado em uma mulher de uma beleza estonteante.
- O que você está fazendo aqui no Fórum? Não vai me dizer que você resolveu estudar Direito?
- Pois é, acho que aquela visita foi decisiva. Acabei entrando em Direito na PUC. Agora, enquanto não me formo, estou fazendo estágio na defensoria pública.
- Defensoria pública...Muito bem, uma futura guardiã dos injustiçados, não?
- É, estou gostando da área. Acredito que seja o que eu quero para mim.
- Que bom, fico feliz. Escuta...
Uma buzina interrompe a frase de César.
- Deve ser a minha mulher. Marquei com ela de vir me buscar... fala,constrangido,Cesar, não sem deixar de notar o efeito da frase no semblante dela.
- Não tem problema, outra hora a gente conversa. Ela fala enquanto ia se afastando.
- Espere... qual é mesmo o seu nome? a pergunta de Cesar ficou sem resposta. Ela já havia sumido. A sensação de vazio se apossa de Cesar. Queria perguntar um mundo para aquela mulher. Alguma coisa nela lhe trazia sensações desconhecidas, familiares. A buzina volta a tocar.

Aquela sexta-feira Cesar resolveu que iria almoçar deixando para trás todos os seus exames de colesterol. Está certo que, aos cinquenta anos, tinha que se cuidar. Mas, bolas... hoje ele iria "baixar a guarda" - pensou.
Haviam inaugurado, na Alameda Eugênio de Lima, bem perto do seu escritório da Av.Paulista, um restaurante chamado A Mineira. Conhecidos seus haviam almoçado lá e
contaram que o leitão a pururuca que eles faziam era para se comer de joelhos.
A entrada e o interior do restaurante lembravam uma casa de fazenda. Cadeiras de madeira, mesas simples arrumadas com toalhas muito brancas. Na parede lateral, ao lado do balcão do bar, uma imensa roda de carroça ajudava a criar o clima da roça.
Cesar escolheu uma das mesas redondas que ficavam no fundo do salão. Quando o garçom chegou com o cardápio, Cesar recusou com um aceno de mão.
- Nem precisa me trazer o cardápio, meu amigo. Vim aqui para comer o famoso leitão à pururuca. Pode me trazer, para abrir os trabalhos, uma "branquinha" reserva especial e uma cervejinha bem gelada.
O garçom se retirou, não sem antes demonstrar a aprovação ao pedido do cliente.
A chegada do leitão encontrou um Cesar de talheres em riste e a boca aguada.
Realmente o leitão era para conhecedores. Temperado com sal, limão, alho e cebola, sua carne praticamente derretia na boca. A pururuca estava especial. Cesar sabia que, para se conseguir o ponto certo, era necessário passar gelo na pele do leitão e depois espalhar, com uma concha, óleo fervendo. Só assim a pururuca vinha bem.
Ao terminar o almoço, Cesar chama o garçom, pede para fechar a conta, recusando o café oferecido. Iria tomá-lo no Fran's Café, a três quadras dali, assim aproveitava e andava um pouco.
Chegando ao café, ao procurar uma mesa vaga, Cesar tem um choque. - Não... não era possível. Não podia ser ela! - pensa espantado. Ainda incrédulo aproxima-se da mesa em que estava uma mulher, que lia distraídamente uma revista.
- Desculpe-me, não quero ser atrevido, mas você não é.....
A mulher, desviando os olhos do que lia, olha para Cesar. Seu rosto é iluminado por um sorriso e ela de imediato se levanta para cumprimentá-lo.
- Cesar, você aqui...não acredito!.
Um abraço. Cesar sentiu como se jamais houvesse recebido um abraço igual. Parecia que a sua alma estava sendo abraçada, uma descarga elétrica percorrendo cada terminal nervoso do seu corpo.
Um beijo e o convite para sentar.
- Mas quanto tempo! Quantos anos? Dez, vinte?
Cesar não conseguia calcular. Quem sabe ontem, ou talvez, em uma outra vida. Mudo, não podia parar de admirá-la.
Os anos haviam decidido contornar aquela mulher. Passaram como uma brisa, que mal despentea os cabelos. Lábios, olhos, o nariz bem feito. Ela estava ainda mais bonita, mais mulher.
Recobrando um pouco do autocontrole, Cesar pergunta desajeitadamente.
- Nossa, como você conseguiu me reconhecer?
- Você não mudou tanto assim. Tirando alguns cabelos brancos, acho que você continua o mesmo.
Cesar agradeceu aquilo que considerou uma mentira piedosa.
- Você, sim, mudou. Está ainda mais bonita - Achando que aquilo pudesse parecer muito clichê, não dá tempo para resposta e continua falando.
- Sabe o que é mais engraçado? Essa é a terceira vez que nos encontramos na vida, e até hoje eu não sei o seu nome..
Ela lhe sorri, colocando a sua mão sobre a dele.
- Cesar, vou te contar um segredo. Essa não é a terceira vez que nos encontramos, é a quarta... e, apesar de você não lembrar, você sabe também meu nome.
- Como assim?, Eu não estou entendendo...
- A nossa história começou há muito,muito tempo atrás. Você não estudava no Colégio das Nações?
- Estudei sim, mas não me lembro de você...
- Claro que não. Você já estava no Clássico e eu era apenas uma garotinha começando o ginásio. Eu estudava no período intermediário e você de manhã. Todos os dias, combinava com minhas amigas de chegar na escola mais cedo, só para pegar a saída do seu período e ver você saindo.
- Um dia soube que você estava trabalhando na cidade. Inventei para a minha mãe que precisava de uma roupa nova e marquei de encontrá-la no centro. Na verdade queria ver se te encontrava. E te encontrei, não como eu imaginava, mas te encontrei. O meu nome é Tatiana.
Cesar sentiu seu corpo petrificar. Então era ela, a menina da passeata!. A garotinha assustada que ele tinha protegido! Tudo agora começava a fazer sentido. Os encontros, a sensação de conhecê-la, a proximidade.
As imagens e lembranças começam a desfilar em sua cabeça, como um vídeo de fotos enlouquecido. Cesar tenta ordenar as suas emoções. Parecia que uma imensa porta havia sido aberta e seus corpos foram sugados para uma outra dimensão. No estado em que ele se encontrava, achou melhor começar a história pelo fim.
- Tatiana, então sempre foi você? Eu não podia imaginar. Mas conte-me tudo. Continua advogando?
- Continuo na defensoria pública. Identifiquei-me desde o começo. E você conseguiu seguir a carreira diplomática? Era seu sonho, lembra?
É claro que ele se lembrava. - Espero que você realize seu sonho!- havia sido a frase dela naquele dia no escritório. Da mesma forma como não podia esquecer o que o fizera abandonar o projeto.
-Não Tatiana, não segui adiante. Aqueles tempos eram tempos muito difíceis. A ditadura, a repressão. Um governo sem liberdade, uma vida sem democracia. Pensei muito e cheguei à conclusão de que jamais poderia servir como representante de um país que era governado por militares.
-É uma pena! Dava para sentir pelo brilho dos seus olhos o quanto você desejava isso.
Cesar não conseguia entender o que estava sentindo. Nunca estivera tão confuso, tão sem reação. Parecia que Tatiana havia estado sempre ali, acompanhando cada momento da sua vida.
-E a família? Pelo que me lembro você tinha se casado. Continua? Tem filhos?
- Continuo casado, sim, tenho três filhos. E você?
- Eu também me casei e tenho dois filhos lindos. Um rapaz e uma menina. O casamento é que não deu... me separei.
-Poxa, que pena! O que aconteceu?
- No começo até que era bom. Ele sempre foi um bom marido, um bom pai. Depois eu acho que os negócios foram tomando conta dele. Queria sempre mais.Mais negócios, mais dinheiro, mais poder. A relação foi esfriando, nos distanciamos.
- E não surgiu mais ninguém? Cesar fez a pergunta, se surpreendendo a desejar uma negativa como resposta.
- Nada de muito sério, namoricos sem maiores compromissos.
- Eu imagino a legião de arrasados que você deve ter deixado para trás. Você é uma das mulheres mais bonitas que eu conheci.
- Qual o que! Um galanteador de primeira... O "terror" do Colégio das Nações volta à atacar!
- Desculpe-me, devo estar passando uma imagem terrível para você; constrangido, Cesar tenta corrigir. - Eu não quero que você me julgue mal, não sou esse tipo de pessoa.
- Eu tenho certeza disso! Tatiana dá um imenso sorriso, ao mesmo tempo em que segura as mãos de Cesar. - Mas não posso negar que esses seus elogios me fazem um bem imenso. Bem aqui dentro - diz apontando o peito - aquela garotinha de doze anos está em estado de graça. Escutou, com atraso, aquilo que sempre quis ouvir. Você não sabe como isso é importante. Você sempre foi uma referência na minha vida, minha grande paixão. Acho que de uma certa maneira, procurava você em cada um dos meus relacionamentos.
- Verdade?
- Claro que é. Jamais diria uma mentira para você. Mas... vamos falar de você, fale de sua vida. Você me parece preocupado.
- Não, imagine. Apenas não sei como me portar, o que dizer. Você me deixa completamente fora do eixo.
- César, você me responde uma pergunta? É bem pessoal....
- Claro, pode perguntar.
- Você me disse que permanece advogando, que tem três filhos e continua casado. E a sua mulher, como ela é? Vocês são felizes?
Cesar não imaginava como uma pergunta tão simples pudesse ser tão complicada para responder. O trabalho, a família, os amigos, qual era a definição de felicidade?
Precisava apertar o botão de "play" e iniciar a exibição do filme da sua vida.
Na vida profissional, após a resolução de não seguir a carreira diplomática, tudo seguira como planejado. Galgara cada degrau da profissão até possuir a sua própria banca de advogados. Era respeitado, bem sucedido e sem nenhum problema financeiro.
Seus filhos nunca deram maiores preocupações. O mais velho havia se formado em engenharia e trabalhava em uma construtora internacional. André, o do meio, preferira abraçar a profissão do pai e já estava no escritório com ele. Carla, a caçula, ainda era estudante, Fazia artes plásticas na FAAP.
Ariane, sua mulher, sempre fora um exemplo de dedicação. Boa esposa, boa mãe, uma mulher sempre pronta a atender a qualquer necessidade da família. Cesar sabia que muito do sucesso profissional que havia obtido deveria ser dedicado a ela. A sua força no comando das coisas da casa e dos filhos deu as asas que Cesar precisou para construir sua carreira. A paixão e o amor do início da relação, com o tempo, acabaram por se transformar em uma grande amizade, cumplicidade mesmo. Ariane era realmente uma mulher excepcional. Ela jamais poderia ser responsabilizada pelo vazio que Cesar carregava no peito. Uma sensação de falta, como quando você esquece uma coisa para trás e não consegue se lembrar do que é. Essa ausência o havia acompanhado a vida toda.
Cesar avaliou qual deveria ser a resposta à pergunta de Tatiana. Naquele momento do encontro, passar a impressão de conquistador barato era tudo o que ele não queria.
Covardemente, respondeu:
- Sim, eu sou feliz.
- Que bom Cesar. É muito bom saber que você conquistou tudo o que queria, que é uma pessoa realizada. Olha, gostaria de ficar conversando mais um pouco com você, mas tenho que voltar para o escritório. Tenho algumas coisas para despachar.
- Já? Fique mais um pouco. Sei lá, acho que temos tantas coisas para conversar. Tantas lembranças a dividir - Cesar não queria deixá-la partir.
- Hoje não dá. Fica para uma outra vez. Afinal, pelo visto, a gente sempre se encontra, não é?
Cesar, contrariado, a acompanha até a saída, onde um taxi a aguardava.
- Olha, Cesar, fiquei muito contente por te encontrar bem, realizado e feliz. Desejo, de coração, toda a sorte do mundo para você e a sua família. Quem sabe, se a vida quiser, a gente se vê por aí.
Um último abraço, um beijo no rosto e Tatiana se despede entrando no taxi.
Cesar era um conflito só. Enquanto o seu lado racional o mantinha imóvel naquela calçada, algo dentro dele gritava por uma reação.
Não podia deixar tudo ser entregue ao destino novamente. Não tinha mais tempo nem idade para esperar. Não agora. Não agora que sabia que o seu vazio, aquele vazio de toda a vida, parecia ter se preenchido. Essa poderia ser a sua última chance.
Praticamente se atirando dentro de um outro taxi que passava, solicita a direção.
- Por favor, motorista, siga aquele taxi ali na frente!

ATIRADORES FRANCOS

FERNANDO RIOS


Um botequim qualquer. Eles estavam num botequim. Ele e ela. Um qualquer botequim. Desses onde as pessoas olham, se olham, olham, se olham...

Muitos, muitos olhares se perdem. E saem fugidos ou fugidios pelas janelas, portas, frestas. Ou mesmo no vácuo de uns olhados e umas olhadas que se retiram às pressas ou às calmas.

Às vezes, os olhares são tantos que formam pequenos furacões que, quase sempre, se confraternizam em esquinas pouco iluminadas.

Alguns olhares se trombam. E voltam aos seus proprietários. Esses costumam ficar com os olhos empapuçados de tantos olhares retornados.

Alguns olhares se cruzam. Mais, se atravessam. Então, os olhares atingem seus objetivos: querem ser ouvidos. E são.

Ele chegou e disse:
- Sou um assassino em série.
Ela respondeu:
- Sou uma assassinada. Adoro ser assassinada em série.

Conversaram um pouco. Não tinham tempo a perder. Nem tempo a ganhar. Só tinham tempo. E nem precisaram combinar um assassinato para daí a pouco. Simplesmente foram.

Embrenharam-se, falaram-se, ouviram-se, desempapuçaram os olhos, guardaram os olhares um do outro. Em alguma parte do corpo que não o globo ocular, testemunha da história.

No dia seguinte, cada um procurou outro botequim. Um botequim qualquer.